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24 de Maio de 2019

Ser ateu, dar sentido ao ateísmo

Como a existência precede a essência, quer dizer, como nós não somos projeto de um deus, temos que dar conta de nós mesmo.

Léo Rosa, Advogado
Publicado por Léo Rosa
há 2 anos

Ser ateu é um modo de estar no mundo. Antes de ser implicação com a existência de divindades, o ateísmo é um desdobramento da reflexão filosófica sobre os limites entre o sentido da existência e o absurdo da existência.

Eternamente indaga-se o sentido da vida. Fala-se do assunto em sério, mas de tão vulgarizado, também já se o aborda como gracejo. A Antiguidade discutia o tema, e filósofos importantes dispensavam a ideia de deuses.

Os filósofos que admitiam a possibilidade de um poder gerador consideravam a hipótese de alguma energia propulsora, jamais de um deus guardião da moral, dos bons costumes, ou das atividades sexuais de alguém.

Eram, naqueles tempos, outros deuses; eram outros os seus sentidos. O deus abraâmida propagado na tradição europeia é outra coisa. Vindo dos judeus, tornou-se cristão, acabou católico, depois variou por confissões.

O deus católico é a divindade do chamado 13º apóstolo, Constantino. No século quarto, como imperador de Roma, com o poder que tinha, impôs essa crença ao mundo. Era simples: ou se era católico, ou se era defunto.

É história sabida. O poder religioso atravessou a Idade Média, a Renascença e mesmo parte da Modernidade. Foram mil e quinhentos anos de feroz controle. Só com a Revolução Francesa a coisa começou a sofrer reversão.

Grupos ateus de internet, sobretudo, estão em franco combate com esse deus cristão\católico\protestante\evangélico. Isso é importante porque desmistifica, traz a discussão para o raso, desmoraliza o “santo nome do senhor”.

Essa, todavia, não é a questão de fundo. A relevância filosófica está nas decorrências existenciais do ateísmo. Declarado morto por Nietzsche, a realidade de deus é trazida novamente à pauta, sobretudo nos meios intelectuais.

E Nietzsche nem discute a existência do deus semita, di-lo morto. A recalcitrância religiosa insiste que o filósofo se trai: “proposta a morte, admitida a existência”. Nada disso. Nietzsche declara a morte da ideia de um deus.

Inexistindo um princípio (um criador que dê sentido às coisas do mundo), vivemos absurdamente. Seja: a vida não tem sentido, a morte não tem sentido, o viver não tem sentido. Nada tem nem faz sentido algum.

Ou deus, ou nada, dirá Kierkegaard. Se houver algum significado para a vida, o deus (cristão) será a sua fonte derradeira. Se não existe no princípio e no fim esse significado, nada terá significado para coisa nenhuma.

É um deus por exclusão, ou por carência justificadora. É um desesperado “tem que existir deus”. Sartre se apropria desse existencialismo e o faz ateu. De fato, dirá, não existe deus e a vida não tem mesmo sentido.

Como a existência precede a essência, quer dizer, como nós não somos projeto de um deus, temos que dar conta de nós mesmo. A vida terá o sentido que nós construirmos historicamente para a vida. Somos condenados a isso.

Sartre e Camus discrepam um pouco. Para Camus, mesmo o gesto histórico resta absurdo. Sartre defende a invenção de sentidos: a responsabilidade do engajamento nos rumos para os quais conduzir nossas circunstâncias.

Essa é a demanda do ateu: o que fazer da vida, do viver, da existência? Seguramente ninguém pode restringir sua militância à publicação de charges jocosas nas redes sociais, ainda que elas se prestem a uma ironia de combate.

O catolicismo alcança 34,3% da população jovem brasileira; ateus e agnósticos são 25,5%; evangélicos somam 14,9%. A pesquisa é da PUCRS, ou seja, vem de uma instituição insuspeita (http://migre.me/wm28g).

O fenômeno do ateísmo, por ocorrer entre jovens, tende a crescer. Como não está programada para buscar o céu, essa juventude talvez se engaje no delineamento de suas circunstâncias. Militar politicamente, diria Sartre.

Discutir a Sociedade, seus valores: o contrato de viver a vida. O Brasil não está para falar sobre convivência pública. O momento histórico é de descrença na política. O momento histórico é de retomada da política.

A política tradicional está religiosa: quase 100% dos nossos deputados se declara como tal (http://migre.me/wm2B8). Há outros meios de construção de sentidos. Os jovens os estão encontrando. Ainda bem. Graças a deus.

4 Comentários

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Estamos a semelhança daqueles que, confinados na caverna da alegoria de Platão, não compreendem a dimensão do Universo e assim, formulamos os nossos por ques limitados.

Nossa ideia de divindade é tão primitiva quanto nós, seus idealizadores, e não poderia ser diferente.

Todavia, conforme vem demonstrando a física quântica, a matéria existe em dimensões imperceptíveis aos sentidos da criatura humana, de tal sorte que, por certo, existe algo maior, haja vista a assertiva de que, toda causa inteligente provém de um evento inteligente. Ou, ainda, do nada, surge, o nada. continuar lendo

Na década de 1960, em plena Guerra Fria, na gestão hilária-quase-catastrófica de Nikita Kruschev na União Soviética, cientistas comunistas renomados, após anos de ingentes estudos e experiências, chegaram ao camarada Primeiro Ministro e solenemente declararam: "Camarada, a ciência soviética, desafiando a crendice ocidental e capitalista, acaba de demonstrar cientificamente que deus não existe". Kruschev atônito, larga o copo de vodka e grita entusiasmado: - "Graças a Deus !" continuar lendo

Deus não cabe dentro da compreensão humana. continuar lendo

"There's probably no god. Now stop worrying and enjoy your life." ~~ Richard Dawkins continuar lendo