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16 de Agosto de 2017
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    Das possibilidades amorosas

    O caso amoroso são quatro pessoas: a pessoa mundo, a pessoa uma, a pessoa outra, a pessoa caso amoroso.

    Léo Rosa, Advogado
    Publicado por Léo Rosa
    há 3 meses

    Meus episódios futuros estão traçados. Posso lê-los com a ajuda das tantas formas esotéricas que os iniciados dominam e com as quais vendem tanta esperança aos incautos, que se alienam voluntariamente.

    Em países como o nosso, com herança sincrética de tantas distintas crenças, os que sabem desvendar o oculto me dirão conclusivamente o que será de mim, me contarão sobre o devir dos meus amores e das minhas dores.

    Não haveria efeito se não houvesse fé na esperança. Na minha esperança, eu sei que vai acontecer a predição, ou o desejado; a fonte do meu saber esperançoso é a fé (credo ut intelligam, Anselmo, santo para os católicos).

    Os iniciados que aprenderam a compreender corações, fizeram-se habilitados a falar a mim sobre mim mesmo. Só que não. O mundo não tem compromisso de cumprir os vaticínios dos operadores de crendice popular.

    Essa coisa toda vem dos tempos em que se cria num universo ordenado no qual se encaixaria cada vida pessoal. Seria o cosmos decodificável em que tudo aconteceria conforme estivesse inscrito na ordem das coisas.

    Mas o mundo é caos. O Universo mesmo é caótico. Mais ainda o é a vida humana. Então, não, a ninguém é dado saber o amanhã. Não obstante, subscrevemos uma nota promissória de planos sobre nosso próprio futuro.

    Queremos o controle da vida que advirá. Em parte temos sucesso: o Universo, se não conspira a favor, também não conspira contra. Então, se conhecemos alguém que nos apaixone, podemos, sim, pensar em vida em comum.

    Mas o desinteresse conspiratório do Universo me entrega ao acaso. Aliás, está dito, o Universo é, ele próprio acaso. Então meu projeto amoroso é fortuito no acontecimento, na permanência e na conclusão. A coisa é embaralhada.

    “Quem eu quero não me quer \ Quem me quer mandei embora \ E por isso eu já nem sei \ O que será de mim agora \...\ Por onde anda quem me quer \ Quem não me quer onde andará \ Que será de suas vidas \ Da minha vida o que será”.

    O Bolero de Jorge Silva desabafa os desencantos, os desencontros, os desacertos. O compositor narra o maravilhosa álea que é a vida. Ninguém me pertence; eu não pertenço a ninguém; todos pertencemos ao mundo.

    Se hoje o mundo me dá alguém, amanhã me poderá levá-lo. Talvez me apresente a uma pessoa, ou apresente uma pessoa a mim. O mundo brinca em sério comigo. As coisas do querer são sérias, mas não são normatizáveis.

    Tudo no mundo e com o mundo é um jogo circunspecto, mas é um jogo aventuroso e descompromissado. A parte ajuizada é o possível de minha gerência: as escolhas. Quando escolhas coincidem, há um caso amoroso.

    O caso amoroso são quatro pessoas: a pessoa mundo, a pessoa uma, a pessoa outra, a pessoa caso amoroso. O caso amoroso tem vida própria e requerimentos. Em geral a alma do caso amoroso são os valores e ritos sociais.

    Se uma das partes não atende as expectativas dos costumes, a coisa tende a não funcionar. A alma do caso amoroso se imiscui na mentalidade das partes. Todo caso amoroso presta sôfrego tributo aos costumes.

    As pessoas uma e outra estão sempre tentadas a trair os costumes, ou seja, o caso amoroso. É que a pessoa uma não sabe toda a outra pessoa, e a outra pessoa não sabe toda a pessoa uma. Não somos totalmente sabíveis.

    As partes de uma relação só se sabem no que têm em comum. Como na teoria do conjunto: só nos sabemos na (pequena) área de intersecção; o mais é coisa que uma parte não conhece da outra, ainda que não suporte não conhecer.

    Então, temos: o mundo fazendo tentação; o caso amoroso botando regras; as pessoas uma e outra, por não se saberem a si, não se controlam, por não saberem a seu par, não o controlam. Na vida não cabem normas para o não sabido.

    Se depender das chances do mundo, relações amorosas vêm e vão. A possibilidade amorosa subsiste no limite do desejo. Desejantes de casos amorosos, perambulamos entre buscas e perdas. Como isso dói. Como isso é bom.

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