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21 de Fevereiro de 2018

Opinião pública, estupidificação dos atores, insulto ao Brasil

A interlocução cedeu vez ao onanismo verborrágico. Sem conversa, ditamos “verdades”.

Léo Rosa, Advogado
Publicado por Léo Rosa
há 15 dias

Jürgen Habermas defendia a esfera pública como o lugar da emancipação humana, pressupondo o governo representativo e as liberdades civis próprias dos regimes liberais, como os direitos de expressão, imprensa, associação etc.

O exercício de tais liberdades constituiria uma dimensão social que se estabeleceria como mediadora entre o Estado e a Sociedade. O público, ou a Sociedade e suas organizações, se faria portador de uma opinião pública atuante.

A comunicação articulada de cidadãos desvinculados das organizações estatais sobre assuntos de interesse geral (acima dos pessoais ou mesmo de corporações ou de classes), propiciaria que se comportassem como um corpo público.

A esfera pública, ainda conforme Habermas, surgiu no final do século 18, auge do Iluminismo, com a expansão dos ideais de cidadania e as exigências de participação política. Era a democracia burguesa substituindo o absolutismo.

A autoridade pessoal e arbitrária contemplada pela vontade divina é substituída pela autoridade impessoal, racional e laica, submetida ao escrutínio dos cidadãos organizados em um corpo político, sob os auspícios unicamente da lei.

Nas sociedades de grandes dimensões, a comunicação pública politizada carece de veículos para organizar e transmitir informações. A mídia da esfera pública conformou-se em jornais, revistas e rádios, fortalecendo-se com a televisão.

Habermas, que não viveu os tempos da difusão da internet, não estudou as mídias sociais, contudo, expressava suspeita das políticas de mídia, da espetacularização excessiva em detrimento da necessária racionalidade dos debates.

Afinal, o sentido de opinião pública pressupõe que o ator valha pelos argumentos e pela capacidade de argumentar, que o objeto debatido ganhe exposição, que os consensos sejam obtidos por persuasão racional dos antagonistas.

Discorro essas considerações em decorrência dos debates estupidificados que temos visto no Brasil acerca dos destinos que nós próprios, não obstante nós mesmos, temos que construir para a vida pública na esfera pública.

Estamos à beira de uma eleição presidencial, seguramente o nosso assunto público mais importante no momento, e diante de um panorama político constrangedor. Ninguém apresenta ideia nenhuma ao exame e debate da Sociedade.

Dos dois candidatos melhormente situados em pesquisas, um, Bolsonaro, vende-se como defensor da violência, defende ditaduras, menospreza o Congresso, inferioriza mulheres. Eu o tenho por um nazista sem noção bastante de nazismo.

O outro, Lula, é coisa sabida: recebeu um país organizado para governar, aprofundou e diversificou meios distributivos de renda, porém, no seu segundo mandato, “caiu” no populismo financeiro, objetivando eleger sua sucessora.

Fê-los com sucesso, a eleição da sucessora e o populismo financeiro. Elegeu e reelegeu sua sucessora. E quebrou o país. Nos trâmites para os tristes episódios, arranjou-se em comparsaria com o que de pior o país poderia oferecer.

A mancomunação da quadrilha de Lula com a quadrilha de Temer arranjou os piores larápios dos cofres nacionais. Os ministros de Lula foram ministros de Dilma e ministros de Temer. Em boa parte, são ministros sob o encalço da lei.

Bolsonaro propõe modos criminosos para gerir o país. Lula, pelos seus modos de gerir o país, foi julgado criminoso pelos tribunais. Felizmente, na mesma medida em que estão na preferência do eleitorado, estão na posição de mais repudiados.

Dos eleitores de um e outro, só manifestações desprovidas de ideias. Dos sectários de Bolsonaro vem esperança purificadora do Brasil, nostalgia dos militares de 1964, moralismo religioso perigoso. Alegam: “Ou isso, ou os comunistas”.

Dos correligionários de Lula temos a crença absurda numa Sociedade dividida pelos “companheiros” entre “eles e nós”. O “nós” é a camaradagem que soube locupletar-se à custa do Estado. O “eles” é nomeado de fascista.

O diálogo está estabelecido como reciprocidade de insultos: uma ideia à esquerda é afrontada pela direita como “contra o Brasil”; uma ideia contra a sedizente esquerda é injuriada como “fascismo de gente indisposta ao diálogo”.

Operamos em dissonância cognitiva. Grupos com razão das próprias causas vão às mídias sociais se autorreferenciando, em loas de si a si mesmos. A interlocução cedeu vez ao onanismo verborrágico. Sem conversa, ditamos “verdades”.

Habermas não viveu os tempos das mídias sociais, não sei, portanto, o que diria delas. Mas o pensador alemão via a esfera pública como um lugar de emancipação humana, e a opinião pública como caldo de cultura dessa libertação.

Não creio que a prepotência de quaisquer vozes insultantes nos leve a lugares de franquias libertárias, debate público e organização social igualitária. Não suponho a possibilidade de um nazista levar o país a bom termo

Desacredito em grupos que fascistamente acusam vozes discordantes de fascistas. Estupidificados, não formamos uma opinião pública capaz de pensar a vida em comum. Nos insultando todos a todos, acabamos insultando o Brasil.